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| Foto: Talitha Selvati |
As imagens dizem muito. Corpos expostos, pernas, barrigas e peitos de fora. Dizeres que reivindicam o direito ao próprio corpo. O uso dos nossos corpos para o nosso prazer, o direito à sexualidade, o direito a ser tocada por outr@ apenas com consentimento, o direito de não ter meu corpo violentado, machucado, invadido. O corpo não é um pedaço de carne, nem um pedaço de gente, não é uma parte, mas o todo. Não queremos discursos e imposições sobre nossos corpos. Estes, portanto, não devem ser moldados, regrados, estereotipados, objetificados. Então, nos despimos para nos apropriarmos dos nossos corpos. Somos contra a nudez mercantilizada, a venda dos corpos. Mas, lutamos pelo direito a nos desnudarmos sem que isso justifique qualquer forma de violência a nossos corpos.
Nas imagens da marcha das vadias, vemos, então, os corpos expostos, e a
eles associadas frases de impacto sobre o próprio corpo. Quase como uma
metalinguagem. O uso do corpo como um meio de comunicação, é pelo corpo, para o
corpo e por meio do corpo que afirmamos nossas reivindicações. Seja com
estapados dizeres, seja pela simples exposição de nossos corpos.
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| Foto: Rayane Noronha Foto: Lívia Mota Foto: Rayane Noronha Foto: Lorena Bruschi |
“Mas então, qual é a diferença entre uma fotografia da
playboy e as fotografias da campanha da marcha? Se vocês são contra as
objetificações do corpo da mulher, porque tiraram a roupa?”
Somente ao olhar a imagem é possível perceber a diferença.

Essa imagem foi produzida pela revista playboy, que é uma empresa que
lucra com a venda de revistas de mulheres nuas. Sem moralismos, a playboy expõe
corpos fictícios (em geral corpos montados no photoshop – peito de uma com
barriga de outra) dentro do padrão do que se considera um corpo sexy, erótico,
fantasiado pelo público masculino, ou seja, um corpo que está ali servindo ao
prazer do homem, mulheres posam nuas em posições sexualizadas, e a imagem está exposta ao deleite dos olhares masculinos.
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| Coletivo Marcha das Vadias DF |
Já a outra imagem foi produzida pelo Coletivo feminista Marcha das Vadias DF. Foi construída no intuito de romper estereótipos do feminismo e mostrar pelo que estamos lutando. Nada esta sendo vendido, a proposta é passar uma idéia. O “tirar o sutiã” simboliza a liberdade da mulher, o direito a mostrar
sim o corpo, mas, desta vez, não para o prazer masculino. Às vezes para o nosso
próprio prazer. Às vezes para reivindicar uma situação e um espaço que nos é
negado. Às vezes para dizer que não nos enquadramos nos padrões ditados de
beleza. Às vezes para dizer que não queremos ter pudor e podemos mostrar nossos
peitos. O que está em jogo não é o prazer e o desejo do homem, mas a liberdade
da mulher.
Afinal, o sutiã simboliza o que não pode ser mostrado, o que
é proibido, o que é fetichizado. O “não mostrar” já evidencia uma cena
erotizada. O que está oculto e queremos ver. O que não podemos, mas queremos.
Assim são as capas das playboys. Você compra a revista e ao
folhear você vai despindo a mulher. A construção do desejo se dá na capa,
quando os olhos querem ver além do que é mostrado, a vontade de saber, de
despir, de olhar o que está, até então, proibido.
E o sutiã as vezes serve como elemento de fetiche, para
ocultar os seios, mas evidenciar suas curvas. Serve também para moldar,
levantar, aumentar, e
padronizar os peitos. Deixando-os nos mesmos moldes e
formatos impostos pelo sutiã. Tudo bem, podemos querer isso. Pois queremos
também nos sentir sensuais. Mas sabemos que essa sensualidade vem acompanhada
de padrões impostos.
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| Foto: Talitha Selvati |
Ao mesmo tempo em que o sutiã
representa uma repressão e imposição de valores a nossos peitos, mostrá-los na
marcha das vadias pode significar “despir-se”, “despudorar-se”. Sim, é um elemento de
fetiche, mas podemos fetichizar, sensualizar e erotizar nossos próprios corpos,
não? E, mais uma vez, vamos a marcha cheias de elementos de fetiches: meia
arrastão, cinta-liga, sutiã, rendas, saltos, batom vermelho, mini saia. E os
usamos para dizer que podemos ser sensuais, podemos ter prazer, podemos ser
vadias, podemos ser tudo que quisermos. E o uso desses elementos não justifica
qualquer atitude desrespeitosa a nós e a nossos corpos.
Então o peitaço significa também um rompimento aos padrões.
Mostramos nossos peitos como realmente são. Sem photoshop. Pequenos, caídos,
com estrias, grandes, duros, moles, aureolas grandes, pequenas. São nossos
peitos, parte de nosso corpo. E somos múltiplas, somos diversas. Nossos corpos
também o são. Diversidades de peitos e de vaginas! Sem padrões!
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| Foto: Kathlen Amado |
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| Foto: Rayane Noronha |
Lembro de varias meninas dizendo “o que meu pai vai
pensar?”. Sim, nossos peitos ainda nãos nos pertencem. Afinal, mostrá-los passa
pelo crivo de nossos pais, namorados, e toda a sociedade, que nos impõe como
devemos nos comportar. Nossos corpos ainda não nos pertencem. Mais reivindicamos
o direito de mostrá-los, de andar livremente com ou sem blusa, de exercer nossa
autonomia e liberdade para exibir o corpo como quisermos. Aos homens não lhes é
negado esse direito. Eles podem andar sem blusa e ninguém vai estuprá-los. Não
por isso. Como já citei em outro post, nossa sociedade define quais partes do
corpo da mulheres podem ou não ser mostradas, define, inclusive, quais partes
serão erotizadas. E o peito está dentro dessa definição. Não podemos mostrá-los
nos diz a sociedade! Mas nós não precisamos aceitar essa regra! O simbolismo
também é esse. Dizer: eu dito as regras do meu corpo e não a sociedade. E, por
isso, o peitaço significa um momento de empoderamento, de força, de união, de
solidariedade, um momento feminista, um ato político.
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| Foto: João Queirolo |
Muitas pessoas questionaram a foto da campanha. E se for um
peito dentro dos padrões estéticos? Não podemos reivindicar o direito ao corpo
e a nossa liberdade de mostrá-los? Ah sim, então, se temos um corpo dentro dos
padrões estéticos, devemos objetificá-los ao prazer dos outros, à
comercialização?
Ela não tem o direito a
reivindicar o corpo dela? Ela não sofre repressões e opressões? Mesmo as
mulheres que correspondem aos padrões estéticos sofrem violências simbólicas e
opressões de gênero. Não devemos nos dividir, somos mulheres. E todas sofremos
de uma forma ou de outra. Reproduzo um trecho do excelente post sobre isso: “o fato de
estarmos sempre sob olhares que nos comparam com outras mulheres, essas nos
fazendo sentir melhores ou piores na medida em que se enquadram mais ou menos
nos padrões que nos martirizamos por não atingir, cria um incômodo entre as
próprias mulheres. comparamo-nos umas às outras, e nos vemos oprimidas diante
de nossas próprias companheiras”.
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| Foto: Renato Souza |
Por fim, algumas imagens reivindicam o direito ao corpo e denunciam as opressões que sofrem diariamente nossos corpos, ou seja, que sofremos. Porque corpo e sujeito são um só. Ambas imagens foram inspiradas nas idéias da
Marcha das Vadias. A segunda foi, inclusive, uma manifestação artística de
chamado para a marcha. Corpos interditados. Corpos estes que foram reprimidos,
limitados, proibidos, restritos, calados, domesticados. Interditados para agir,
se expressar, se manifestar, se posicionar, ocupar um espaço que historicamente
não lhes foi destinado. Corpos estes que vão agora às ruas. Corpos subversivos,
que pedem liberdade.
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Júlia Zamboni
Colecionadora de sonhos, as vezes tira um da caixinha e tenta realizá-lo. Além disso, é antropóloga, fotógrafa, mestranda em comunicação social e feminista. Faz parte do Coletivo Marcha das Vadias DF.
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