segunda-feira, 19 de março de 2012

Devassa Negra: consumir a quem?

Já faz tempo que queria escrever sobre a Devassa. O momento, portanto, é oportuno. No final de fevereiro o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (CONAR) determinou a alteração da publicidade da Devassa Negra por considerá-la racista. Decisão acertada depois de inúmeras reclamações recebidas pela Ouvidoria da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR).

Mas por que incomoda tanto?
A imagem mostra uma mulher negra de costas com boa parte do corpo exposto. A imagem vem acompanhada de um texto que diz: “É pelo corpo que se reconhece a verdadeira negra. Encorpada. Estilo dark ale de alta fermentação. Cremosa com aroma de malte torrado". Quem é cremosa? Quem é encorpada? Quem é a negra? A mulher negra está associada à cerveja numa relação ambígua sobre quem está sendo consumida.
Vale a pena pontuar alguns aspectos. Porque dentre tantas publicidades de cerveja é a moça negra quem está de costas? Nas publicidades da Devassa Loura a garota propaganda exibe rosto e parte do corpo enquanto segura um copo de cerveja com um sorriso convidativo.


Campanha com Paris Hilton 2010 

Campanha com a Sandy 2011














As campanhas da Devassa Loura de 2010 e 2011 tem focos bem distintos e também exploram e objetificam o corpo da mulher, porém, a objetificação máxima está na publicidade da Devassa Negra, onde o rosto é secundário. O olhar do receptor é direcionado prioritariamente à fenda das costas que conduz, justamente, até a bunda.


Em 2010 a revista playboy lançou um concurso das bundas mais bonitas. A imagem das vencedoras mostrava duas brancas e uma negra. Obviamente todas estavam de costas, mas somente a negra não mostrava nenhum traço do rosto, reiterando a lógica de negra = bunda carregado de todos os estereótipos do “mulata de carnaval” disponível para o consumo.

O corpo da mulher negra é totalmente objetificado e dele retirado qualquer significado que não seja o uso para o prazer sexual.

O corpo humano traz uma gama de significações e signos que reafirmam características sociais. Ele é, então, apropriado e construído cultural e socialmente. Cada sociedade determina quais partes dele podem ser mostradas, tocadas, adornadas, etc. As marcas de dominação, subordinação e afirmações de poder estão presentes no corpo. Mas também é pelo corpo que podemos comunicar, denunciar, reivindicar, nos fazermos sujeitos e construir nossa identidade. O uso dos cabelos crespos soltos, por exemplo, revelam o orgulho de assumir o corpo negro. Por isso, o corpo é constante campo de disputa político-ideológica.


Retomo a discussão sobre as outras publicidades da Devassa. Em 2010 a cervejaria lançou campanha com a Paris Hilton. A publicidade televisiva induzia à mesma lógica: compre a cerveja e consuma a mulher ou consuma a cerveja e compre a mulher. A Ouvidoria da Secretaria de Políticas para as Mulheres recebeu diversas denúncias e entrou com representação no CONAR. O Conselho pediu a reformulação da publicidade e a polêmica estava instaurada.
O slogan da publicidade impressa era: “Ela chegou. Uma cerveja que não tem vergonha nenhuma de seduzir você. Bem gelada. Bem loura”. Ótimo! A mulher é agente da sua própria sexualidade! Errado. De novo: mulher e da cerveja se confundem, ambas te seduzem para serem, posteriormente, compradas e consumidas.
No anexo P do código de autorregulamentação publicitária é evidente a proibição: “eventuais apelos à sensualidade não constituirão o principal conteúdo da mensagem; modelos publicitários jamais serão tratados como objeto sexual”.

Em 2011 foi a vez da Sandy, garota que até pouco tempo pregava a idéia da virgindade como valor social. A Devassa merece um prêmio por utilizar todos os estereótipos possíveis. Nesta campanha cujo slogan era “todo mundo tem um lado devassa” trouxeram a idéia “menina santa pra casar” mas “vadia na cama”. Porque não compram a idéia da liberdade sexual feminina? Não é ruim ser devassa, é ruim ser objeto de prazer masculino.

Mas a Devassa jamais compraria essa idéia por um simples fato: as publicidades ainda são pensadas e elaboradas para um público alvo masculino, e ignoram o fato de que os/as consumidores/as de cerveja são, grande parte, mulheres.
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Júlia Zamboni

Colecionadora de sonhos, as vezes tira um da caixinha e tenta realizá-lo. Além disso, é antropóloga, mestranda em comunicação social, feminista e foi uma das organizadoras da Marcha das Vadias em Brasília.





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sexta-feira, 9 de março de 2012

Nosso Corpo, Nosso Território

Foto: Leandro Pena.

A história da humanidade é uma história de grandes conquistas. Conquistas territoriais, inclusive. Por toda a parte, guerras foram e são travadas para garantir a posse de terras, avançar as fronteiras, incluir recursos naturais importantes e passíveis de serem explorados. Nesses conflitos, quase sempre outros recursos também são reivindicados: o corpo das mulheres.
Em tempos de conflito, soldados e integrantes de milícias são incentivados a estuprarem coletivamente mulheres de regiões tomadas. Na ação de reintegração de posse do Pinheirinhos promovida pelo governo do Estado de São Paulo, houve denúncias de estupros praticados por policiais. Na Líbia, Muamar Kadafi teria incentivado seus soldados a estuprar as mulheres dasfamílias consideradas rebeldes, inclusive oferecendo-lhes dinheiro como “recompensa”.


No caso dos estupros coletivos praticados durante a ocupação de territórios, eles são também atos de soberania. Assim com um legislador define quem é o dono de determinado território, os homens definem através do estupro quais corpos lhes pertencem. Assim, subjulgadas física e moralmente, as mulheres sentem em seus corpos a violência e o poder dos seus dominadores. Trata-se de ato de violência expressiva e instrumental, ou seja, tem como única finalidade o controle absoluto de uma vontade sobre a outra.
Na cultura machista em que vivemos, não se trata, portanto, de um problema individual, um transtorno de personalidade. Significa que os homens aprendem de diferentes maneiras, através de diferentes estímulos, que os corpos das mulheres estão de alguma maneira acessíveis aos seus impulsos.  Nos termos da política, que eles podem ser dominados, e que esta dominação demonstra o poder, a força e incapacidade de ação daqueles que são subjulgados.

A tomada de territórios por séculos significou a tomada do corpo das mulheres, o que acontece até hoje. Nossa cultura machista faz com que sejamos vistas como objetos, instrumentos de consolidação do poder a serem invadidos e violentados.

E entre tantas luta travadas pelos nossos direitos, neste 8 de março reivindicamos um direito fundamental: o de decidir sobre o nosso corpo. Estados, Igrejas, Mercados, todos reivindicam a possibilidade de decidir sobre os nossos futuros, sobre o território do nosso corpo. Mas ele é nosso e nós o defendemos como defendemos nossos territórios.



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 Priscilla Brito

Tem problemas de concentração e pensa milhões de coisas ao mesmo tempo. Quase sempre, são planos de como mudar o mundo a partir das inspirações feministas cotidianas.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Os significados do Dia Internacional da Mulher


"Nada causa mais horror à ordem que mulheres que lutam e sonham" (José Martí)


A origem das comemorações do Dia Internacional da Mulher ainda é controversa, mas a história sempre indica que ela está intimamente ligada a lutas por melhores condições de trabalho. Alguns relatos apontam que a data é uma referência a manifestações de mulheres russas por melhores condições de vida e trabalho, contra a fome e contra a entrada da Rússia na Primeira Guerra Mundial, que acabaram por desencadear a Revolução de 1917. Outros relatos sugerem que se trata de uma homenagem a operárias mortas num incêndio de uma fábrica têxtil em Nova Iorque, também em meio a reivindicações trabalhistas.

A primeira proposta de criação oficial de um Dia Internacional da Mulher partiu de Clara Zetkin, membro do Partido Comunista Alemão, e foi apresentada no II Congresso Internacional de Mulheres Socialistas, ocorrido na Dinamarca em 1910.

Algumas décadas depois, a ONU designou o ano de 1975 como o Ano Internacional da Mulher, ocasião em que se começou a comemorar o Dia Internacional da Mulher em 8 de março. Em 1977, a Assembléia Geral da ONU adotou uma resolução recomendando que seus países membros escolhessem um dia no ano para celebrar a ocasião.

Durante todo o século XX, no Brasil, as vitórias das mulheres foram várias: conquistamos o direito de votar, passamos a adquirir a capacidade civil plena independentemente de casamento, povoamos as universidades, dentre inúmeras outras conquistas que devem ser celebradas.


No entanto, muitas lutas ainda se vislumbram, especialmente no mundo do trabalho.
A Constituição de 1988, por exemplo, em seu artigo 7º, parágrafo único, determinou que apenas alguns dos direitos trabalhistas fossem assegurados a trabalhadoras/es domésticas/os. Trata-se de uma modalidade de trabalho exercido majoritariamente por mulheres, especialmente mulheres negras, o que, segundo Cleusa Aparecida, da Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), “explicita mundialmente a divisão sexual e racial do trabalho existente no país”.

Em 2010, foi apresentada a PEC 478/2010, com o objetivo de suprimir tal dispositivo. Apenas em 2011 a Organização Internacional do Trabalho (OIT) aprovou a adoção da Convenção sobre o Trabalho Decente Para as Trabalhadoras e os Trabalhadores Domésticos nº 189 e a Recomendação nº 201. Ainda temos, pela frente, um longo caminho de implantação de mudanças.


O  primeiro Anuário de Mulheres Brasileiras, organizado pela Secretaria de Políticas para Mulheres (SPM) e pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) explicita, ainda, inúmeras outras situações de desigualdade de gênero no mundo do trabalho. A pesquisa demonstra, por exemplo, que a maioria dos empregadores ainda é composta por homens e que o rendimento médio das mulheres ainda é menor, sendo que, em relação às mulheres não negras, esse rendimento caiu entre 2006 e 2009. Pesquisas demonstram ainda que, muito antes de entrarem no mercado de trabalho, meninas enfrentam mais dificuldades ligadas tanto ao acesso à educação formal quanto à reprodução de estereótipos de gênero no ambiente escolar e nos materiais de estudo.

Há que se lembrar também a violência a que estão submetidas as mulheres, principalmente no âmbito doméstico. Segundo o Mapa da Violência 2012, a cada ano cerca de 4 mil mulheres são assassinadas no Brasil. O Distrito Federal, por sua vez, ocupa o sétimo lugar no ranking nacional de assassinatos de mulheres. Apesar das recente vitória no STF em relação à Lei Maria da Penha, muito ainda precisa ser feito para que esse tipo de violência seja efetivamente combatido.

Desse modo, o 8 de março é sim uma data festiva, que remete a lutas e conquistas. Mas, sobretudo, remete também a muitos desafios. Assim, apesar da situação privilegiada em que muitas de nós nos encontramos, ao frequentarmos a universidade, ganharmos salários que nos sustentam ou não sofrermos violência doméstica, é necessário relembrar sempre as formas de violência insidiosas que nos impedem de sermos plenas e a vida de nossas companheiras que ainda persistem em lutas mais visíveis, que há muito deveriam ter sido vencidas.

Nosso desejo é que esse dia seja comemorado, mas que também instigue a reflexão e que as mobilizações dela resultantes perdurem por todo o ano. Que a data não nos deixe esquecer que, muito mais do que vítimas, somos seres racionais e políticos, capazes de imaginar um mundo melhor e lutar por justiça.


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Milena Pinheiro

"Que no se ocupe de ti el desamparo, Que cada cena sea tu última cena, Que ser valiente no salga tan caro, Que ser cobarde no valga la pena. (...) Que el corazón no se pase de moda..."


O dia (a dia) da mulher

Neste dia da mulher em que tantas flores e homenagens são distribuídas, recomendamos o textos indignado na Aline Valek.


Parabéns pelo seu dia, mulher. Parabéns a você que é feminina, delicada e nos encanta com sua beleza. Parabéns a você que não é feminista, masculinizada ou vulgar. Parabéns a você que não fala palavrão, porque sabe que isso não é de bom tom para uma mulher. A você que não deixa de fazer a unha, passar batom e fazer escova, mesmo que trabalhe em serviços masculinos em que isso seja totalmente dispensável, porque você sabe, a gente precisa ter certeza que você ainda é mulher.

Parabéns a você, mulher perfeita. Sem estrias, sem gorduras, sem pelos, sem poros. A você que não é gorda e por isso cabe em roupas maravilhosas. A você que também não é magra demais, para podermos admirar suas curvas. Parabéns a você que faz de tudo para se encaixar nesse meio termo imaginário. Colocar peito, tirar barriga, levantar o nariz, depilar a laser, esticar o cabelo, clarear os dentes, malhar glúteos. Parabéns a você que, se for gorda, está tentando emagrecer; porque todos sabem que gordas são mal amadas e não se cuidam. A você que, se for velha, está tentando o tempo todo parecer mais jovem, porque mulher tem data de validade.

Continua em: http://www.alinevalek.com.br/blog/2012/03/o-dia-a-dia-da-mulher/

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