sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Vamos falar de Sexu?!

Hoje, sexta-feira, é dia de estréia! eu, Capitu, vou apimentar nossos planos para o final de semana, falando de um assunto que sempre é bem-vindo: Sexo!!

De uma maneira direta e descontraída, vou falar das nossas dúvidas e inseguranças, fantasias e desejos. Pode ser que alguém queira classificar o conteúdo como impróprio para menores, mas nesse caso espero que os pais estejam atentos ao que seus filhos veêm na internet. Eu, particularmente, gosto de falar do assunto de maneira direta, até educativa, e acho que muitos dos problemas da nossa vida estariam resolvidos se as pessoas aprendessem a superar os seus tabus em relação a isso.

E fiquem à vontade! Comentários aos textos serão muito bem-vindos!


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 Capitu

Gosta de música, de sexo e de outras atividades não muito banais. Voraz, cultiva fantasias e não tem medo de realizar seus desejos.

Fórum Social Temático: atividades da semana


 Foto: Conexões Globais

A minha impressão de que o Fórum é muito mais legal por causa das pessoas do que pelas atividades em si vai se confirmando aos poucos. Não que as atividades não sejam boas, tenho aprendido bastante com gente de todos os lugares do mundo, especialmente da América Latina. Parece que o espanhol é a língua oficial do FST.
Antes de ontem, dia 25, eu estive em uma atividade sobre o empoderamento das mulheres negras que contou com a presença da atual ministra da SEPPIR, Luiza Bairros. Enfatizou-se, durante a atividade, a importância da luta das mulheres negras na construção da democracia nos países da América Latina. “A luta pela igualdade racial não é só do movimento negro”, disse uma das convidadas, “é de quem que lutam pela democracia. A representante da Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB) anunciou a organização de uma marcha nacional de mulheres negras no ano de 2015.


A ministra Luiza Bairros apontou a necessidade de se discutir no âmbito do movimento as formas de poder mais “tradicionais”, como partidos, eleições e reforma política. “Não adianta ter só uma pessoa em determinado espaço de poder, tem que ir além, entrar nessa política em grandes números”, disse a ministra.

No início da noite, a atividade mais concorrida era a do Conexões Globais, que contou com a presença de Gilberto Gil. Aliás, se eu pudesse eu só ficaria nas atividades do Conexões, na cada de Cultura Mário Quintana. Gente, tem tanta coisa legal... Queria ter ido na oficina de wordpress... enfim.
Gil falou do uso das redes sociais em mobilizações como a Primavera Árabe. Depois dele, Vinicius Wu, chefe do gabinete digital do governo de Porto Alegre falou a importância do debate sobre o uso de ferramentas livres e de inclusão digital para garantir a transparência governamental. 



No 26, a Articulação feminista Marcosur promoveu a discussão dos direitos a serem incorporados à discussão na Rio+20, especialmente no que se refere às questões de gênero e raça.

Mas o momento mais esperado era a atividade com a presidenta com representantes das organizações ligadas à organização do Fórum Social Temático. Claro que eu não entrei lá e não fui convidada, mas depois peguei as informações divulgadas e conversei com quem estava lá. 

Pablo Salon, ambientalista, criticou o conceito de economia verde, segundo ele muito ligado à idéia de mercantilização capitalista. Carmen Foro (CUT) cobrou da presidenta mais empenho no atendimento às demandas históricas do movimento sindical e rural como redução da jornada de trabalho e reforma agrária.


A melhor notícia da noite, no entanto, foi a decisão da presidenta de retirar a MP 557 da pauta do executivo. A presidenta admitiu o equívoco em relação à decisão e foi aplaudida de pé pelas pessoas presentes, especialmente pelo movimento feminista, que desde a publicação da Medida havia se posicionado radicalmente contra o seu conteúdo.

Eu não faço nem idéia de como a presidenta vai fazer isso, mas fiquei muito contente com a sua humildade em admitir o erro. Aproveitei então para comemorar brindando diante de um pôr do sol espetacular às margens do Guaíba. No caminho, conheci o ônibus do pessoal do Transparência Hacker, que está estacionado perto do Gasômetro.

A noite de ontem terminou com outra visita ao Ocupa Poa. Espero conseguir falar sobre ele depois, mas valeu a pena a visita pelas conversas e pela energia trocada com as pessoas de lá. Acho que é um dos únicos Ocupas que ainda estão de pé, acho que até domingo vai rolar oficina de stencil e de gritos de mobilização (mais fáceis do que a gente tava tentando aprender lá).


Hoje e amanhã devo estar às voltas com as atividades da Articulação de Mulheres Brasileiras que planejou roda conversa, debate e grupo de trabalho sobre as demandas das mulheres para a Rio+20. Entre as convidadas estão Lilian Celiberti, do Cotidiano Mujer (Uruguai), Vera Baroni, da Articulação Nacional de Mulheres Negras e Iara Pietricosvsky, do INESC.

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 Priscilla Brito

Tem problemas de concentração e pensa milhões de coisas ao mesmo tempo. Quase sempre, são planos de como mudar o mundo a partir das inspirações feministas cotidianas.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Fórum Social Temático 2012


Foto: Cáritas

 O Fórum Social está de volta a Porto Alegre. Na sua versão temática, o Fórum reúne os movimentos de mulheres e outros movimentos e organizações da sociedade civil para definir estratégias de participação na Cúpula dos Povos por Justiça Sócio-Ambiental, que acontecerá entre os dias 15 e 23 de Junho de 2012 na cidade do Rio de Janeiro, por ocasião da Conferencia de Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20.

Debaixo de muita chuva (que eu peguei quase toda e fiquei morrendo de medo de molhar meus equipamentos) o Fórum abriu sua programação com a conhecida Marcha de Abertura, saindo do Mercado Central até o Parque Harmonia, onde a programação seguiu com as atrações culturais. No mesmo parque, cerca de 1500 jovens estão acampad@s no Acampamento Intercontinental da Juventude.

Os movimentos de mulheres vão organizar diversas atividades, na tentativa de inserir a temática de gênero nas discussões sobre sustentabilidade. A Articulação de Mulheres Brasileiras, em parceria com a Articulacion Feminista Marcosur planejou debates, projeções de filmes, entre outras atividades para os dias 27 e 28 de janeiro. A Marcha Mundial de Mulheres também planejou diversos debates sobre sustentabilidade e esteve presente com a sua alegria e descontração na Marcha de Abertura.

Ontem, eu estive em uma atividade com a atual ministra da SEPPIR, Luiza Bairros, organizada pela Articulação de Mulheres Negras Brasileiras.  O tema da mesa era o empoderamento das mulheres negras, e as convidadas falaram principalmente da necessidade de se ocupar espaços institucionais e de reivindicar que suas vozes sejam ouvidas e levadas em conta nas principais instâncias de decisão política.

A noite, segui para uma atividade com o Gilberto Gil, que falou da Primavera Árabe e da importância da internet e da comunicação livre. O responsável pelo gabinete digital aqui de Porto Alegre também era convidado da atividade e fez uma fala muito boa sobre a importância da internet para a democracia e para a transparência da gestão.

Gostei bastante da atividade, embora ela ainda seja um ilha de alegria em meio ao marasmo total desse Fórum. Não tem nada a ver com os anteriores, e tendo a achar que ele está mesmo prestes a acabar. Nem a presença da presidenta parece animar as pessoas. 

É uma pena que depois de toda a utopia e de tantas coisas acontecendo em sintonia com o que se esperava nos primeiros Fóruns, como os ocupas, as manifestações, a resistência simbólica do Santuário dos Pajés em Brasília e da comunidade do Pinheirinho em São Paulo, quase todos os discursos assumam um tom governista de contentamento com os limites impostos pelo jogo de forças de poder.

Veremos se vai continuar esse clima até o dia 28.







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 Priscilla Brito

Tem problemas de concentração e pensa milhões de coisas ao mesmo tempo. Quase sempre, são planos de como mudar o mundo a partir das inspirações feministas cotidianas.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

BBB 12: Veja passou dos limites?


A capa da Veja desta semana me chamou atenção. A revista já é conhecida pela péssima qualidade jornalística. Agora querem usar o recurso barato de explorar o corpo da mulher para vender? Sempre achei que esse golpe baixo era coisa de publicitários. Mas é até coerente se considerarmos que a veja não faz jornalismo.
Essa imagem traz uma série de elementos interessantes que explicitam o discurso da veja. Comecemos pelo recorte. A margem da imagem delineia a bunda da moça. Ela está de costas com o corpo posicionado para frente de modo que a bunda fica em evidência. 


O rosto da moça não é mostrado, característica que objetifica o corpo da mulher e “despessoaliza” a imagem. Esse recurso é bastante utilizado em imagens publicitárias. 
O corpo feminino é exposto de uma forma quase irreal, fantasiosa, mística e fetichista. E, o foco está, em geral, em partes do corpo da mulher. Um corpo fragmentado. Neste caso da Veja, a mulher é isso: uma bunda.


A tarja preta também merece ser analisada. Esses elementos servem para fetichizar uma imagem. O fetiche vem associado a idéia de imaginar o que está escondido, e o desejo de despir e descobrir o corpo, o não visto, o proibido. A própria tarja preta indica a proibição. Outro recurso bastante usado na publicidade.
O que vale enfatizar é que tudo foi uma escolha. Os ângulos, o recorte, a posição, o foco, e, claro, a própria imagem, dentre infinitas outras do Big Brother, ou mesmo a própria logo do programa.
A escolha da relação imagem e texto também é proposital. A mensagem “passou dos limites?” é colocada em consonância com a imagem da mulher. A idéia fica ambígua: afinal, o que passou dos limites? A mulher da imagem ou o homem que estuprou? A tendência é associarmos o texto à imagem e criarmos um laço semântico. O leitor vai ao texto para buscar o significado da imagem e à imagem para dar significado ao texto.
Outra coisa que me inquieta é a linguagem interrogativa na tarja. O discurso é dúbio. Não cabe questionar se passou dos limites. É simples: passou! Por que a veja não se posicionou nesse caso? A revista sempre postula suas idéias e enfatiza seu posicionamento político. Por que será que a Veja não se posiciona?
Sabemos que a Veja é a voz da parte mais conservadora da extrema direita e pela história recente dos seus posicionamentos políticos e ideológicos, natural supôr que a Veja teria também posições reacionárias no que diz respeito a discussão de gênero. Talvez por isso a escolha da imagem. Fiquei intrigada com isso e busquei outras capas sobre a temática de sexo.


Nas capas anteriores a 2001 a idéia do sexo aparece de forma relacional entre homem e mulher. A partir disso percebemos uma associação do sexo ao corpo feminino e em nenhuma delas ao corpo masculino. Por que está sempre associado ao corpo da mulher?

Além disso, percebemos a recorrência de matérias sobre prazer feminino e traição feminina. Mais uma evidência da curiosidade em entender as mulheres. Ou seja: somos “o outro”, ou como Beauvoir dizia (e criticava) “o segundo sexo”.
Imagem publicada no blog: gospelecologia.blogspot.com
Na análise do discurso fazemos algumas perguntas para compreendê-lo. Quem fala? Para quem fala? O que fala? E por qual meio? Se nós mulheres somos “o outro”, quem fala é um homem. Para outro homem. Sobre sexo. Por meio de uma imagem de mulher. É, acho que posso concluir que é uma revista masculina e machista. Afinal, eles não têm vergonha de colocar uma imagem sexista na capa com discurso dúbio.

A veja passou dos limites? Essa pergunta já virou clichê. A veja sempre passa dos limites!






Para comentar esse post no twitter use a hashtag #capaveja
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Júlia Zamboni

Colecionadora de sonhos, as vezes tira um da caixinha e tenta realizá-lo. Além disso, é antropóloga, mestranda em comunicação social e feminista.





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domingo, 22 de janeiro de 2012

A família brasileira das novelas


"Ah, sabe como é, naquela época não existia televisão", era mais ou menos a justificativa do meu pai para o fato de ter 12 irmãos. Hoje, pensando sobre o assunto, fico me perguntando se a questão era que na falta de outro "entretenimento noturno" as pessoas transavam mais, ou se por a televisão facilitou o acesso a informações sobre contracepção e planejamento familiar. 

Vale lembrar que a popularização da Tv coincide com a queda das taxas de mortalidade do país. Desde 1960, o número de filhos caiu de 6 por mulher para menos de 1,9 hoje. Claro que isso tem a ver com a migração para as cidades, mudanças econômicas, sociais e na própria idéia de família. Em toda a América Latina se observa uma fenômeno de industrialização significativo.


O que intriga os demógrafos no caso do Brasil é que a taxa de natalidade caiu quase do mesmo jeito na São Paulo, tão cosmopolita, e na Amazônia.

A questão, portanto, tem menos a ver com as diferenças entre rural e urbano do que se pensava. Segundo o blog "The Society Pages", a idéia de núcleos familiares menores vem sendo amplamente retratadas nas novelas. A maior autonomia das mulheres no mundo do trabalho, a valorização do seu papel na família e mais uma série de fatores também influenciariam na decisão de ter filhos.

Para os demógrafos, portanto, a TV influenciaria a percepção que as pessoas tem da família, mesmo que a mensagem não seja direta, como acontece numa campanha que incentive o planejamento familiar.

Já eu acho, que vale a pena a gente pensar no papel que a televisão tem nas nossas casas, e de que maneira ela impacta a frequência com que fazemos sexo. Afinal de contas, ela serve como uma forma de entretenimento. Me vem logo à cabeça a imagem do pai assistindo à Tv morago, depois de um dia exaustivo de trabalho, enquanto a mulher cumpre a outra parte da sua dupla jornada, que é arrumar a casa. Depois de um dia inteiro, de trabalho, e de toda a alienação que só a tv é capaz de proporcionar, ainda rola ânimo pra transar com a/o companheira/o?


*Imagem de destaque: cena da novela "Vida da Gente", da TV Globo.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

As mulheres árabes

Foto: Jikatu, no Flickr, em CC (alguns direitos reservados)

Eu sabia que não iria demorar pra eu escrever sobre mulheres árabes (com o perdão da generalização). Recentemente escrevi um texto sobre afegãs (que apesar de não falar árabe eu acabo incluindo em um grupo que tenho curiosidade), mas apesar da minha indignação, como era uma história muito triste, de violência, acabei não conseguindo terminar o texto. Recetemente fui a uma mostra de filmes que versavam sobre a Primavera Árabe. Minha curiosidade, fascinação e desilusão com as mulheres do Oriente Médio variou bastante nesse ano. Ops, do ano passado, e que continua a me inquietar esse ano. E esse filme mexeu de novo com a minha cabeça, me fazendo pensar na importância das mulheres nos processos revolucionários e na construção das suas identidades e da identidade de seus povos.


Começei 2011 estudando árabe na Mesquita de Brasília e, por conveniência mesmo, tinha que ir pra aula coberta dos pés à cabeça. Na sala de aula, porém, podia tirar o véu e ficar à vontade, porque minha professora, egípcia, não se importava com isso. Inclusive suas filhas, também egípcias, usavam trajes ocidentais sem maiores problemas.


Ao longo do primeiro semestre fui me aproximando da literatura sobre Oriente Médio e da literatura feminista da região. Realmente gostei muito, estava convencida de que algumas questões, como o próprio uso do véu, são estereotipadas pela nossa visão democracista de que a liberdade das mulheres islâmicas depende de se livrar do véu. Não é bem por ai, o véu é bastante relativizado, por questões não só religiosas, mas principalmente políticas. As mulheres nos países árabes foram/são eleitas como símbolo, ora de autenticidade e tradição, ora de modernidade.


Dai quando fui ao Marrocos minha cabeça deu um nó. A experiência de ter um contato mínimo, mas real com as mulheres árabes me fez repensar em todo o meu entusiasmo. Lá pude ver tanto mulheres praticando boxe com homens na rua (sim, no meio da praça!), mulheres dirigindo motos com um véu que tapava todo o rosto, literalmente, e com um óculos de sol por cima do tecido (achei bem criativo inclusive) e vi mulheres sendo destratadas na rua explicitamente porque não usavam o véu. Vi também, bem no interior do país, cooperativas de artesãs e agricultoras. Isso mexeu comigo, mexeu com a minha visão de ocidental.


Resolvi estudar sobre o papel das mulheres na Primavera Árabe, mas minhas fontes estavam na maioria em árabe (e eu ainda num sei a língua... =/) ou em inglês (que foram sumindo, porque na internet as informações são muito mais voláteis, infelizmente). Finalmente ontem, assisti um filme que fazia vários recortes sobre histórias que mostravam diferentes facetas da revolução no Egito.


Uma das histórias do filme versava sobre uma mulher que decidiu ir pra Praça Tahrir contra a vontade de seu marido. Apesar de serem jovens, aparentemente modernos, cuja relação se mostrava horizontal, o rapaz impedia a moça de ir às ruas manifestar. Depois de alguns dias esperando, ela resolve sair e se junta à massa de manifestantes.


 Nada demais tem a história, mas de novo voltei a pensar o quanto ainda é preciso deixar esse falso relativismo, e compreender que realmente as lutas no mundo todo, difíceis de acordo com suas especificidades, são iguais. As mulheres de todo o planeta, com ou sem véu, possuem as mesmas dificuldades. Não é desvelando as mulheres islâmicas que elas passarão a ter liberdade de dirigir na Árabia Saudita, de votar nos Emirados Árabes Unidos ou de estudar no sertão nordestino. Porque liberdade não é só não ser impedida de fazer algo, mas ter condições de exercer essa liberdade.

O que é sexo, o que é estupro: mulheres estupráveis


No primeiro post no blog coloco um assunto que me revira o estômago, que me assusta, que me dá medo e que condiciona o que eu faço e o que deixo de fazer, que limita a minha liberdade e a de todas as mulheres: estupro. Violência de gênero a que estamos sujeitas pelo simples fato de sermos mulheres.
Nos últimos dois dias vi estarrecida que tinha sido cometido um estupro no programa de televisão da Rede Globo: o Big Brother Brasil registrou um rapaz entrando embaixo de um edredon e beijando uma moça que não se move. Ele começa claramente a passar a mão no corpo dela embaixo das cobertas e ela... não se move. Ele faz movimentos que são extremamente parecidos com sexo e ela... não se move.


Bom, nas imagens divulgadas na internet, o que vemos? Sexo sem consentimento. Não porque a moça disse um sonoro “não”, reagiu, apanhou e gritou, mas sexo sem consentimento porque feito com alguém que não tinha condições de consentir, de querer, de desejar.
Qual é o nome que o Direito Penal atualmente dá a isso? “Comportamento inadequado” como afirmou a Rede Globo? Ou abuso sexual? Não. O nome disso é “estupro de vulnerável” e é tipificado pelo art. 217-A:

Art. 217-A.  Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (catorze) anos: (Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009)
Pena - reclusão, de 8 (oito) a 15 (quinze) anos. (Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009)
§ 1o  Incorre na mesma pena quem pratica as ações descritas no caput com alguém que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência(Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009)


Pressionados pelos comentários nas redes sociais que falavam claramente em estupro, a direção do programa, que no dia anterior não interrompeu a violência, embora tivesse condições de fazê-lo; chama a moça que já tinha afirmado momentos anteriores que não se lembrava do que aconteceu, para perguntar se ela tinha consentido. Não lhe mostraram o vídeo. Somente lhe questionaram. Ela coloca que sim, que consentiu.
Embora seja possível que venha a afirmar que estava consciente durante as carícias e possivelmente  uma penetração (vide os movimentos do moço no vídeo) mesmo quando sair do confinamento, as imagens não deixam dúvida. Trata-se de uma pessoa inerte.
O que nos interessa aqui, para além da discussão se o rapaz deva ser preso ou não, mas que interessa igualmente ao Direito, é lançar a pergunta: o que leva uma mulher a negar que sofreu estupro? O que leva a sociedade, inclusive delegadxs, promotorxs e juízxs a negá-lo? Para as mulheres que sofrem a violência ou outro tipo de violência pelo fato de serem mulheres, várias questões que passam pela cabeça: medo, vergonha, sentimento de culpa. Em relação aos “operadores do Direito”, há uma reafirmação do que o senso comum tem repetido nos últimos dias no caminho de culpabilização da mulher.
São séculos incutindo na cabeça das mulheres que elas devem limitar sua liberdade – de agir, de falar, de vestir e de transitar – para que não provoquem a libido do homem e não justifiquem a ocorrência de um estupro, estabelecendo aí, um verdadeiro privilégio* sobre o corpo delas, mesmo contra a sua vontade.
O estupro já foi nomeado como crime contra os costumes, denotando o papel que o sexo e as mulheres ocupavam na sociedade. O ato de “contranger mulher à conjunção carnal” fazendo uso de violência ou grave ameaça não era um crime contra a mulher, mas contra a moral da sociedade, um crime contra os seus costumes. Há uma fala de Allan Johnson que Heleieth Saffiotti resgata que é muito clara nesse sentido. A autora afirma no livro Marcadas a Ferro que estupro era coisa entre homens, em que um homem é punido com a “curra” porque esteve com uma mulher que não estava disponível a ele, mas a outro. Viola não as mulheres, mas um código patriarcal, entre homens.
 A partir da reivindicação dos movimentos feministas, o Código Penal é modificado em 2009  Lei nº 12.015, de 2009) e o crime passa a ser encarado como ofensa à Dignidade e Liberdade Sexual. O que se quis dizer com isso é que as pessoas, todas elas, inclusive as mulheres, têm o direito de viver a sua sexualidade de forma livre, escolhendo quando, como e com quem querem fazer sexo. Liberdade significa poder dizer SIM, mas poder dizer NÃO também e isso não tem uma ligação com a moral social, mas com a vontade da pessoa.
O medo do estupro condiciona a vida das mulheres, como já repisamos. Quantas mulheres não limitam o lugar que frequentam por medo de serem estupradas? O medo funciona como um verdadeiro controle: um toque de recolher. Maior a restrição da liberdade quanto menor a condição econômica da mulher. Estas que dependem de transporte público sabem o risco que correm em transitar pelas ruas à pé ou em ônibus e metrôs à noite. Não que um automóvel as livre de prática de violência por um desconhecido, mas com certeza amplia o seu eixo de escolhas para estar nos espaços.
No entanto, o “toque de recolher”, o cuidado em não estar sozinha na rua (o que me lembra muito as regras sociais do início do século que dizia que “moças de família” não deviam estar sem uma companhia masculina de alguém de sua família à rua) não resguarda as mulheres contra a violência porque a violência não vem só dos estranhos, em becos escuros.
Ela também é praticada por amigos e conhecidos, homens que seriam da confiança da mulher, com os quais, muitas vezes, ela tem uma boa relação. Maridos, namorados, amigos, irmãos, um professor, um chefe, um colega de trabalho... Homens acima de qualquer suspeita. Trabalhadores, honestos, camaradas, ou não.
Tem-se o imaginário de que o estupro só é cometido por estranhos e “doentes” contra “mulheres honestas”, “direitas”, “corretas”, o que desprotege as mulheres e as expõe à violência diante de um prévio consentimento social a partir da omissão em relação ao agressor e de culpabilização em relação às vítimas. Criou-se, dentro do tipo penal um padrão de “vítima”, de mulher “estuprável”, por mais que a lei não faça mais essa ressalva com a retirada do termo “mulher honesta” do Código Penal em 2009.
Basta que a mulher não esteja dentro do padrão que a violência pode ser desconsiderada. Então qualquer uma que seja prostituta, ou que a ela se compare por exercer livremente sua sexualidade ou por aparentar que a vive usando uma minisaia, por exemplo, não pode ser sujeito passivo de estupro. Aqui podem ser consideradas também as que teriam o dever de satisfazer sexualmente, como as esposas, namoradas e mesmo as “ficantes”. Se provocou com beijos, abraços, carícias e deu a entender que queria o sexo, mesmo que depois venha a dizer que NÃO ou que tenha ficado desacordada por efeito da bebida (o que acontece com homens e mulheres, não sendo privilégio destas), então não podem posteriormente alegar que foram estupradas.
O que discutimos quando levantamos a questão de que  é crime fazer sexo com uma mulher que não pode consentir? Para além da leitura do tipo penal, o que se quer dizer é que as mulheres tem o direito de estar em lugares públicos, que tem o direito de se divertir, que tem o direito de ficar bêbadas e, NÃO, que nada disso autoriza os homens a fazer sexo com elas. É isso que o tipo penal, no fim das contas, quer dizer. É isso que queremos dizer quando falamos que é crime.
O direito penal vêm no meio de um contexto que ainda possibilita que os funcionários da Rede Globo, orientados para intervir diante de uma prática de violência, não tenham impedido o rapaz. Em um contexto em que a situação é acompanhada por comentários nas redes sociais que afirmam que a moça é uma “safada”, ou que “bebeu porque quis” e que por isso é responsável pelo que aconteceu.
O que nos interessa, mais que a prisão dos estupradores, é a mudança de uma mentalidade que permite que o estupro aconteça, uma mudança cultural que garanta liberdade às mulheres. Foi essa preocupação que mobilizou “Marcha das Vadias” por todo o mundo.
 
Não somos santas, não somos putas, somos livres. Liberdade de dizer sim e dizer não!
 Parem de ensinar “bons modos” às mulheres e comecem a ensinar seus filhos, irmãos, amigos, parentes, conhecidos... a não estuprar.
 Sem as mulheres não existem direitos humanos!
  
*aqui não falamos de “Direito” propositadamente porque o “Direito” para nós significa outra coisa: vide “O que é Direito” de RobertoLyra Filho.
*** Todas as imagens são do Flickr de lia_carreira, e estão em Creative Commons (alguns direitos reservados).
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Diana Melo

"Feminista desde sempre, pra construir coletivamente o direito de que eu, como mulher, tenha a liberdade de ser o que eu quiser ser, amar da forma que eu quiser amar e estar onde eu quiser estar."

Maranhense, advogada militante da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos - Escritório Brasília e responsável pelos debates de Combate à Tortura e Violência Institucional; Educadora popular desde 2002, a partir da experiência do Núcleo de Assessoria Jurídica Universitária Popular - NAJUP "Negro Cosme" e atualmente colaboradora de projetos de extensão da UNB, (Promotoras Legais Populares) e UFMA (Najup Negro Cosme). Integrou o Grupo de Mulheres da Ilha do Maranhão e atualmente milita no Coletivo A-grupa, que discute feminismos e relações de gênero, " pervertendo a separação entre razão e sensibilidade". Também é colunista do blog http://assessoriajuridicapopular.blogspot.com





Milena Pinheiro

"Que no se ocupe de ti el desamparo, Que cada cena sea tu última cena, Que ser valiente no salga tan caro, Que ser cobarde no valga la pena. (...) Que el corazón no se pase de moda..."

domingo, 15 de janeiro de 2012

Presente de natal de mau gosto da presidenta para as mulheres: MP 557

O post de hoje no blogueiras feministas é meu e fala sobre a MP 557!! Modéstia a parte, vale a pena ler para se inteirar mais do assunto.



O presente de natal da presidenta para as mulheres não poderia ser mais inquietante: no dia 27 de dezembro a Medida Provisória 557 foi publicada no Diário Oficial. Seu objetivo é instituir o Sistema Nacional de Cadastro, Vigilância e Acompanhamento de Gestante e da Puérpera para Prevenção da Mortalidade Materna.



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 Priscilla Brito

Tem problemas de concentração e pensa milhões de coisas ao mesmo tempo. Quase sempre, são planos de como mudar o mundo a partir das inspirações feministas cotidianas.





segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Parabéns para Simone de Beauvoir



A primeira vez que eu ouvi falar de Simone de Beauvoir foi em uma aula de filosofia do primeiro ano. Segundo o professor, ela não teria sido uma filósofa muito importante história da filosofia, num sentido mais teórico, mas sem dúvida suas idéias influenciaram de muitas maneiras a sua geração e as que se seguiram.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

ENTREVISTA: Beatriz Galli fala sobre a MP 557


Maldades têm limite. E época do ano para perpetrá-las, também. Depois de “destruir” pouco a pouco, ao longo do ano, a Política de Atenção Integral à Saúde da Mulher, o Ministério da Saúde extrapolou na última semana de 2011. Para ser mais exata no dia 26 de dezembro. Estrategicamente, entre o Natal e o Ano Novo, assinou, autoritariamente, sem debate com organizações que se ocupam da saúde da mulher, a Medida Provisória 557.


segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Se o mundo não acabar em 2012...



Talvez fosse a hora de fazer o que não tivemos coragem de fazer até agora. O que você ainda quer fazer?

Imagem: la.furia, no Flickr, em CC (Alguns direitos reservados).
Até 2011 eu mantive muito da minha vida sob controle. Até porque eu precisei ser boa principalmente como estudante, principal função da minha vida. Tinha uma casa que me pertenceu pelo simples direito, e para a qual eu nunca precisei me dedicar muito. Tive um amor construído sobre tudo o que eu sempre acreditei, definido pelo imenso companheirismo. Foi uma fase de muitas mudanças, e como toda a minha vida aconteceu tudo muito rápido. Com 21 anos me vi formada, trabalhando naquilo que gosto e acredito, cercada por pessoas incríveis e com algumas conquistas acadêmicas na bagagem. 2011 me fez passar muita raiva pelo desafio de enfrentar diversas vezes o conservadorismo da nossa sociedade e várias outras coisas indignantes, mas seria injustiça demais dizer que foi um ano ruim. Foi um ano de mudanças significativas, e na verdade tenho dúvidas se haverão muitos mais assim. A gente muda o tempo inteiro, claro, mas como a minha ansiedade plantei as sementes para muitas coisas que só florescerão ou darão frutos ao longo de muitos anos.

O que eu espero para 2012? Coragem para encarar aquilo que eu mesma provoquei, sensibilidade para perceber o que me rodeia e conseguir dar os passos necessários. Um pouco de astúcia para saber quando parar ou quando continuar. Concentração, porque sempre me falta e eu preciso dela para lidar com os desafios do trabalho. E amor, com todas as suas nuances, inclusive as novas. Porque só ele é capaz de colorir a minha racionalidade.

Não sei se é pedir demais, não sei se são coisas simples. Mas espero que o mundo não acabe em dezembro, para que eu possa reler este texto e ver que tudo fez sentido e que eu superei mais um ano inteiro de possibilidades de vida. E espero que vocês também possam definir os seus caminhos e ter a gostosa sensação de que valeu a pena, mesmo quando parece estar errado. Até porque é o que nos resta, nunca dá para voltar atrás mesmo.


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 Priscilla Brito

Tem problemas de concentração e pensa milhões de coisas ao mesmo tempo. Quase sempre, são planos de como mudar o mundo a partir das inspirações feministas cotidianas.




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