É recorrente as publicidades trazerem representações estereotipadas das mulheres. A propaganda da Hope é só mais um caso de publicidade que desrespeita, faz uso abusivo do corpo feminino, estigmatiza e perpetua estereótipos.
A campanha “Hope Ensina” coloca Gisele Bundchen ensinando as mulheres a ficarem de lingerie quando têm que dizer para os maridos que bateram o carro, ou extrapolaram o limite do cartão de crédito, e, para isso, devem tirar a roupa.
A lógica da Hope se repete em várias outras publicidades: a mulher oferece ao homem a única coisa que tem de interessante. O corpo e sexo. Ela usa o “capital erótico” a seu favor e oferece o corpo como moeda de troca. Absurdos como estes são produzidos e reproduzidos pela mídia.
Não vou, desta vez, analisar essas publicidades, porque o que me indignou, talvez até mais do que a própria publicidade, foram os argumentos contrários à ação da Secretaria de Políticas para as Mulheres, que entrou com representação no CONAR pedindo a suspensão da propaganda.
Os argumentos são os mais diversos. Porque insistem em deslegitimar a luta falando que temos algo mais importante para fazer? Pior: quem fala isso são jornalistas. Os argumentos são tão rasos que acho que eles mesmos não conseguem ver para além dos aspectos físicos. Se critico é porque sou “feia, gorda e... feminista”?! Então, se um homem faz a mesma critica ele é o quê?
Curioso é perceber que tentam evidenciar uma “guerra entre mulheres”. Gisele x Iriny, feministas x femininas, sensuais x mal-amadas! Tudo é válido para deslegitimar nossa luta quando não há argumentos plausíveis. Como se tivéssemos que “escolher” um lado! Nós não somos tão dicotômicas. E o mais irônico é falar isso para quem luta pela garantia do direito de todas as mulheres.

Outro argumento absurdo é o da censura. Tudo que vai contra a manutenção do status quo é censura! Se você pensa diferente de mim, está me censurando! Oras! Em um regime de censura, o material é analisado previamente. Já com mecanismos de controle social e, principalmente, participação social, o monitoramento é feito pela própria sociedade civil com respaldo de organismos governamentais e a palavra final é dada pelo conselho de publicitários. Onde ta a censura? O simples fato de existir instrumentos como ouvidorias, conselhos, etc, já indica que vivemos em um regime democrático. E, enfatizo: democrático não é impor uma ideologia, mas evidenciar as diversas ideologias.

Bom, voltando aos procedimentos. Me proponho a explicar o bê-a-bá, principalmente para os jornalistas, que parecem não entender a atuação do Governo. Diversas pessoas denunciam uma dada publicidade por acharem desrespeitosa com as mulheres. A Ouvidoria da Secretaria de Políticas para as Mulheres recebe essas denuncias e encaminha um oficio ao CONAR (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária), que, como o próprio nome diz, é uma instância de autorregulamentação do setor, portanto, não governamental. Portanto, não é censura! Inclusive, uma das prerrogativas do Conselho é que se considere o senso de responsabilidade social, evitando acentuar diferenciações sociais.
O que me surpreende é ver que não há ligação de idéias.
Por que temos tão poucas mulheres em espaços de poder e decisão seja no meio político, científico e até mesmo publicitário? O que isso tem a ver? Tudo! Precisamos começar a concatenar as idéias. Será que o pensamento de quem critica pode ser tão raso que não conseguem ver além do fato em si? A questão não é simplesmente a publicidade da Hope, mas as pequenas conseqüências desta.
Vivemos uma realidade em que 40% das mulheres sofrem violência doméstica. Em uma sociedade em que a mulher é vista como propriedade do homem, e esta submetida aos desejos e vontades do marido. E ainda acreditamos ser inofensiva uma propaganda em que a mulher usa o corpo como moeda de troca? “O que tem de errado com a sensualidade feminina?” Nada errado! A questão nunca foi a sensualidade. Eu gosto de ser sensual, mas acima de tudo, gosto de ter autonomia. Lutamos para ter autonomia de ser o que quisermos. E, me desculpem, mas a minha concepção de autonomia não está na minha sensualidade. São conceitos que não se cruzam. Afinal, eu não preciso tirar a roupa e fazer beicinho para ser ouvida! Ou não deveríamos precisar...
Volto aos argumentos absurdos. “Mas é só uma piada! Não tem senso de humor? Levem as coisas menos a sério”, e ao mesmo tempo: “vocês não tem nada mais sério para fazer?”. Peraí! Fiquei confusa! É pra ser séria ou não é pra ser séria? O que eu devo ser [fazer, pensar, falar] mesmo?
A crítica é válida e é séria. E a piada nunca é só uma piada. Ela reforça preconceitos e estereótipos. Estamos cansadas de ser naturalizadas como “do lar”. Estamos cansadas de sermos vistas como só um corpo. Ou será que eu deveria vestir minha lingerie e falar com voz meiga e infantil: “amor... é que... eu... estou cansada de ser só um corpo”?
Espero que os publicitários pensem um pouco antes de idealizar uma campanha dessas. E, eu vou continuar denunciando às ouvidorias e conselhos quaisquer publicidades que sejam racistas, sexistas, homofóbicas ou desrespeitosas.
Afinal, quem ta sendo prejudicadao/a? Certamente não é a Hope, nem a Gisele.
Update: A ministra concedeu uma entrevista às Blogueiras Feministas sobre o assunto, como é possível ver no link: http://blogueirasfeministas.com/2011/10/iriny-lopes/
______________________________________________________________________________
Júlia Zamboni
Colecionadora de sonhos, as vezes tira um da caixinha e tenta realizá-lo. Além disso, é antropóloga, mestranda em comunicação social, feminista e foi uma das organizadoras da Marcha das Vadias em Brasília.
______________________________________________________________________________